O corpo feminino e as preposições

«Uma mulher, encontrando-se às cinco da manhã junto de uma igreja e com a bexiga cheia, tem vontade de urinar contra a parede da igreja. A cena ocorre em Jerusalém, o romance de Gonçalo M. Tavares. Chamo a atenção para a preposição escolhida para expressar o desejo desta mulher: esse contra. Ela é bastante significativa — denota uma direção de encontro violento. Mas há aqui um problema: é que nenhuma mulher é capaz de urinar contra o que quer que seja.

Deixar escorrer o chichi pelas pernas abaixo, sim, pode. Mijar por cima de uma superfície horizontal (de uma lápide, de um canteiro florido, de uma mesa bem posta), sim, pode. Pode, conceptualmente, mostrar a sua atitude contra urinando, mas se o fizer, será de uma forma mais subtil, não se podendo apoiar nessa preposição (provavelmente terá, sim, que se apoiar, mas em alguma outra estrutura, com propriedades mais sólidas). O que a Mylia, a personagem de Jerusalém, causa notório transtorno.»

Publicado na revista Forma de Vida nº 27, dezembro de 2023. Continua em https://formadevida.letras.ulisboa.pt

Leave a comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *