Pombos e maritacas

«No dia 31 de Janeiro de 2014, foram avistadas cinco maritacas na Avenida António Augusto Aguiar. O que faziam ali cinco aves tropicais, soltas em pleno inverno lisboeta? Estes pássaros grandes, coloridos, barulhentos, misturados entre os pombos quietos e cinzentos, passaram despercebidos a praticamente toda a gente que estava à sua volta. Eu reparei. E desde já estabeleço uma nota importante: falo de mim com um certo pudor — não gosto de usar a palavra ‘eu’ logo no primeiro parágrafo —, pelo simples facto de ‘eu’ me parecer um objecto de estudo de fácil acesso para as questões que me interessam aqui. Do que me interessa falar aqui é sobre o que é ser daqui, o que é estar aqui, ou estar em algum outro lugar.»

Publicado na revista Forma de Vida nº 5, janeiro de 2015. Continua em https://formadevida.org/s/fdv5arqasabino.pdf.

Araras e pardais

Um ensaio sobre óptica subjetiva

«Um pardal é uma ave extraordinária. As suas plumas cor de madeira de carvalho, com matizes de castanheiro, cedro, mogno e cerejeira cobrindo o peito suavemente arredondado, o seu bico triangular, de uma proporção perfeita, com as arestas curvadas em gentil elegância, os pequenos olhos cheios de brilho, vivacidade e enigma. É de facto um animal belíssimo. Mas porque é que é mais fácil elogiar a beleza de uma ave exótica? Dizer ‘os pardais são aves incríveis’ parece à partida distinto de ‘as araras são aves incríveis’. A diferença, a meu ver, reside pouco nas qualidades das próprias aves.»

Publicado na revista Forma de Vida nº 13, maio de 2018. Continua em https://formadevida.org/asabinofdv13.

Writing for Real

Um ensaio sobre superfícies de inscrição e instâncias de legitimação

«’Stop writing on walls’, pode ler-se na parede de uma casa de banho feminina de uma Faculdade de Letras portuguesa. A frase remata: ‘start writing for real’. O apelo parece razoável, mas levanta mais perguntas do que aparenta. Nomeadamente: o que significa writing for real?

Iniciando um trabalho de tradução que inclui uma tentativa de perceber a intenção da autora, a ideia parece ser a de exortar a que se deixe de escrever nas paredes (e vou deixar passar o paradoxo em relação ao meio escolhido para a inscrição que contém esse conselho) e se passe a escrever a sério. Só que este sério também levanta problemas. Imagino que a sério signifique neste caso: de forma estruturada, coerente, linear, progressiva, em direção a uma obra mais extensa, que poderá ser eventualmente reproduzida em formato livro (é uma longa presunção, mas sendo a autora anónima, não posso pedir-lhe que a confirme ou desminta). Mas porque é que publicar, tendencialmente em livro, seria mais sério ou mesmo mais real, em duas possíveis versões da expressão inglesa for real na nossa língua? A frase escrita no livro é mais séria ou real do que a frase proclamada ao vento, sussurrada ao ouvido, lançada em aviões de papel, enviada em carta postal, ou escrita numa parede?» […]

Publicado na revista Forma de Vida nº 21, Agosto 2021. Continua em https://formadevida.org/asabinofdv21.