Não me contes o final

APONTAMENTOS SOBRE NARRATIVA E EXPECTATIVA NA LITERATURA E NO CINEMA

«São várias as razões pelas quais Exotica, de Atom Egoyan, é um filme extraordinário. A primeira das quais sendo aquilo que não se vê no filme: aquilo que se vai inventando dentro de nós para corroborar a sequência de imagens que está a passar à nossa frente. Isto leva-nos a observar que um filme não se encerra entre o seu início e o seu fim; que existe toda uma construção, interior a nós, que suporta aquilo que está englobado na duração do filme.

Logo à partida, há a ideia que se forma em nós quando o filme ainda não começou, mas sabemos que o vamos ver. Podemos ter expectativas perante o filme, geradas pela opinião ou descrição de outrem (embora saibamos como essas descrições podem ser subjectivas). Podemos também ter expectativas pessoais, criadas pela estima que temos pelo seu realizador ou actores, ou podemos mesmo estar a par do enredo, porque lemos uma sinopse ou lemos o livro a partir do qual o filme foi adaptado. Neste ponto, tenho observado (de uma forma totalmente empírica) que os espectadores se dividem em dois tipos: os que não querem saber nada sobre os eventos que se vão passar, num filme ou num livro, e os que não se importam nada com o facto de saberem alguma coisa à partida.

Aquilo que motiva esta diferença prende-se com questões de narrativa e de expectativa, construções que são comuns ao cinema e à literatura. […]»

Apresentado e publicado no I Simpósio «A fusão das artes no cinema», no XX Festival Caminhos do Cinema Português. Continua em https://caminhos.info/docs/proceedings_simposio_2014.pdf, páginas 39-44.

Luz e sombra

Se há coisa que um fotógrafo sabe bem é que o mundo tem apenas duas dimensões. Todos os outros, os seres que observam a partir de dois olhos e não de uma objetiva, julgam habitar paralelepípedos e percorrer túneis cilíndricos feitos de abóbadas e arcadas. O fotógrafo sabe que, na verdade, deslizamos entre linhas e traços que a luz desenha e apaga como se fosse um lápis: numa ponta grafite e negrume, noutra ponta borracha e candura. Tentando imitá-la, homens e mulheres traçam também eles linhas que refletem ou recolhem luz. Nesse jogo procuram emular aquele mundo em que pensam viver, habilmente invocando luz e sombra, trapaceando o olho para que perceba espaço onde há só linhas. Criam-se assim palimpsestos temporários: o homem desenhando, convocando a luz, e a luz desenhando por cima, revelando ou obscurecendo o que o homem desenhou. Acordando numa manhã de inverno neste mundo bidimensional, a mulher encobre a cabeça de maneira a refletir toda a luz, agarra na carteira e vai à sua vida.  

Texto para fotografia de Paulo Pimenta, anteriormente publicado em: http://www.tknt.pt/episodios/uma-imagem-vale-mil-palavras-mil-caracteres-uma-imagem-2/