Design de livros:

uma leitura criativa

RESUMO: Ao designer cabe escolher a forma do livro. Para bem escolher a sua forma, é imperativo que o designer conheça o texto, porque só assim lhe poderá dar um corpo e uma cara, seja através do desenho da sua capa (aquilo que será a primeira imagem do livro), da escolha das suas dimensões e materiais (que constituem a estrutura material do livro) ou da forma com que o seu texto aparece ao leitor (através do uso da tipografia). A forma visual e material que o livro adquire sob a sua batuta é reflexo da sua própria interpretação, que é dessa forma transmitida ao novo leitor — é, nesse sentido, uma leitura criativa: que cria um novo objeto. Ao olhar para um texto, quando se prepara para lhe dar uma forma que seja publicável, o designer procura certas deixas que lhe permitam interpretar o texto de uma maneira muito específica, procurando algumas características na sua forma verbal que possam ser transpostas para a sua forma visual. Para o conseguir, ele apoia-se na sua própria leitura, um tipo de leitura especializada que é aqui descrita e explorada.

Publicado na revista Entreler nº 2, maio de 2022. Continua em https://www.pnl2027.gov.pt/np4/entreler/entreler2_design.html.

Carta a uma jovem designer — um apelo à sinestesia

«Pergunta-me uma jovem imaginária o que é preciso para se ser designer (diz-me a estatística que será uma designer, mais provavelmente do que um designer). Respondo-lhe: gostar de arte e de engenharia. E também de agricultura, matemática e geofísica. E cinema, e dança, e literatura.
Algumas das melhores aulas de design que tive não foram exatamente aulas de design. Passando à frente as aulas em que aprendia a ser pessoa tanto quanto a ser designer — injustamente, porque é tanto ou mais importante aprendermos a ser pessoas antes de qualquer outra coisa —, lembro-me, por exemplo, de uma masterclass de violoncelo, de uma tarde de escalada, de alguns conselhos para jovens escritores.»

Escrito para o projeto «Cartas sobre design», a convite da Joana Baptista Costa e Mariana Leão, maio de 2022. A sua continuação pode ser lida (e ouvida, graças ao Ensemble de violoncelos da ESART) em https://www.cartas.design/carta-a-uma-jovem-designer/.

Do livro como objeto à leitura como evento

«Vários estudos literários exigiam já a presença e a ação do leitor, assim como de outros agentes, para que o texto existisse. […] Mas talvez não se tenha dado ainda a importância devida ao ato que o leitor efetua em cada leitura. Mais ainda: não foi dada a devida importância ao objeto, que funciona tanto como caixa fechada como como chave para a abrir, nesse ato de leitura; ele não só contém o texto, mas também aquilo que permite que o leitor o descodifique. Este artigo pretende, além de sublinhar a importância do ato de leitura como fator constitutivo do livro, dar a ver o papel da materialidade do livro nessa ação. Se é necessariamente o leitor quem ativa um livro, produzindo leitura, o próprio livro traz consigo um conjunto de características formais, que respondem a vários protocolos de leitura, aos quais chamo ‘instruções de leitura’.»

Publicado na revista Entreler nº 1, outubro de 2021. Continua em https://pnl2027.gov.pt/np4/entreler/artigo7.html.

Pombos e maritacas

«No dia 31 de Janeiro de 2014, foram avistadas cinco maritacas na Avenida António Augusto Aguiar. O que faziam ali cinco aves tropicais, soltas em pleno inverno lisboeta? Estes pássaros grandes, coloridos, barulhentos, misturados entre os pombos quietos e cinzentos, passaram despercebidos a praticamente toda a gente que estava à sua volta. Eu reparei. E desde já estabeleço uma nota importante: falo de mim com um certo pudor — não gosto de usar a palavra ‘eu’ logo no primeiro parágrafo —, pelo simples facto de ‘eu’ me parecer um objecto de estudo de fácil acesso para as questões que me interessam aqui. Do que me interessa falar aqui é sobre o que é ser daqui, o que é estar aqui, ou estar em algum outro lugar.»

Publicado na revista Forma de Vida nº 5, janeiro de 2015. Continua em https://formadevida.org/s/fdv5arqasabino.pdf.

Araras e pardais

Um ensaio sobre óptica subjetiva

«Um pardal é uma ave extraordinária. As suas plumas cor de madeira de carvalho, com matizes de castanheiro, cedro, mogno e cerejeira cobrindo o peito suavemente arredondado, o seu bico triangular, de uma proporção perfeita, com as arestas curvadas em gentil elegância, os pequenos olhos cheios de brilho, vivacidade e enigma. É de facto um animal belíssimo. Mas porque é que é mais fácil elogiar a beleza de uma ave exótica? Dizer ‘os pardais são aves incríveis’ parece à partida distinto de ‘as araras são aves incríveis’. A diferença, a meu ver, reside pouco nas qualidades das próprias aves.»

Publicado na revista Forma de Vida nº 13, maio de 2018. Continua em https://formadevida.org/asabinofdv13.

Writing for Real

Um ensaio sobre superfícies de inscrição e instâncias de legitimação

«’Stop writing on walls’, pode ler-se na parede de uma casa de banho feminina de uma Faculdade de Letras portuguesa. A frase remata: ‘start writing for real’. O apelo parece razoável, mas levanta mais perguntas do que aparenta. Nomeadamente: o que significa writing for real?

Iniciando um trabalho de tradução que inclui uma tentativa de perceber a intenção da autora, a ideia parece ser a de exortar a que se deixe de escrever nas paredes (e vou deixar passar o paradoxo em relação ao meio escolhido para a inscrição que contém esse conselho) e se passe a escrever a sério. Só que este sério também levanta problemas. Imagino que a sério signifique neste caso: de forma estruturada, coerente, linear, progressiva, em direção a uma obra mais extensa, que poderá ser eventualmente reproduzida em formato livro (é uma longa presunção, mas sendo a autora anónima, não posso pedir-lhe que a confirme ou desminta). Mas porque é que publicar, tendencialmente em livro, seria mais sério ou mesmo mais real, em duas possíveis versões da expressão inglesa for real na nossa língua? A frase escrita no livro é mais séria ou real do que a frase proclamada ao vento, sussurrada ao ouvido, lançada em aviões de papel, enviada em carta postal, ou escrita numa parede?» […]

Publicado na revista Forma de Vida nº 21, Agosto 2021. Continua em https://formadevida.org/asabinofdv21.

Húmus

Húmus, murmúrio mudo,
pedregulhos húmidos de bafio e brilho,
espectros sombrios de que foge o estio,
buxos puídos, denegridos sepulcros…
Como pode algo tão lúgubre
ser tão luminoso?
Com uma penada ilumino,
com outra, ludibrio.

(sobre Húmus, de Raul Brandão)

Não me contes o final

APONTAMENTOS SOBRE NARRATIVA E EXPECTATIVA NA LITERATURA E NO CINEMA

«São várias as razões pelas quais Exotica, de Atom Egoyan, é um filme extraordinário. A primeira das quais sendo aquilo que não se vê no filme: aquilo que se vai inventando dentro de nós para corroborar a sequência de imagens que está a passar à nossa frente. Isto leva-nos a observar que um filme não se encerra entre o seu início e o seu fim; que existe toda uma construção, interior a nós, que suporta aquilo que está englobado na duração do filme.

Logo à partida, há a ideia que se forma em nós quando o filme ainda não começou, mas sabemos que o vamos ver. Podemos ter expectativas perante o filme, geradas pela opinião ou descrição de outrem (embora saibamos como essas descrições podem ser subjectivas). Podemos também ter expectativas pessoais, criadas pela estima que temos pelo seu realizador ou actores, ou podemos mesmo estar a par do enredo, porque lemos uma sinopse ou lemos o livro a partir do qual o filme foi adaptado. Neste ponto, tenho observado (de uma forma totalmente empírica) que os espectadores se dividem em dois tipos: os que não querem saber nada sobre os eventos que se vão passar, num filme ou num livro, e os que não se importam nada com o facto de saberem alguma coisa à partida.

Aquilo que motiva esta diferença prende-se com questões de narrativa e de expectativa, construções que são comuns ao cinema e à literatura. […]»

Apresentado e publicado no I Simpósio «A fusão das artes no cinema», no XX Festival Caminhos do Cinema Português. Continua em https://caminhos.info/docs/proceedings_simposio_2014.pdf, páginas 39-44.

Thinking through drawing

«This essay is a praise for drawing as a form of thinking. Particularly, to project-driven drawing: the kind that we do when we are searching for a form of something to-be. We will talk about that exploratory activity that allows us to solve problems, trying to reach a conclusion through searching for it in the traces that a pencil leaves on a sheet of paper. The process is very similar to writing an essay, in the way that it is the choosing of words and sequencing of sentences, and their constant checking and reviewing, in order to reach a final form. A goal is to be achieved, while certain constraints are to be attended to. In the end, a result will arise, a result at which we arrive by writing / by drawing.

Although it would make perfect sense to begin this essay without knowing exactly where it would end, we should lay down some ground rules as to what is the subject, the extent and the purpose of these pages — even if only to sparkle the thinking process. In a broad sense, what we’ll be talking about is the thought connected to the act of drawing, and concentrate on a particular kind of drawing. In terms of the thinking involved in it, drawing could be classified in terms of its purpose: what you are aiming to do when you’re drawing, and the means you have, or are willing to provide, for it. Roughly, there’s the kind of drawing you do when the object you are drawing is in front of you and you’re interpreting it, the kind of drawing you do when you’re picturing something in your head and trying to transfer it onto paper, and a kind of exploratory drawing, which is widely used in the applied arts, in which you are trying to discover, through drawing, the shape of something that doesn’t yet exist — either in reality or in your own head — as a finished object.» […]

Keep on reading at: https://confia.ipca.pt/files/confia_2018_proceedings.pdf (pages 290-297).