Do livro como objeto à leitura como evento

«Vários estudos literários exigiam já a presença e a ação do leitor, assim como de outros agentes, para que o texto existisse. […] Mas talvez não se tenha dado ainda a importância devida ao ato que o leitor efetua em cada leitura. Mais ainda: não foi dada a devida importância ao objeto, que funciona tanto como caixa fechada como como chave para a abrir, nesse ato de leitura; ele não só contém o texto, mas também aquilo que permite que o leitor o descodifique. Este artigo pretende, além de sublinhar a importância do ato de leitura como fator constitutivo do livro, dar a ver o papel da materialidade do livro nessa ação. Se é necessariamente o leitor quem ativa um livro, produzindo leitura, o próprio livro traz consigo um conjunto de características formais, que respondem a vários protocolos de leitura, aos quais chamo ‘instruções de leitura’.»

Publicado na revista Entreler nº 1, outubro de 2021. Continua em https://pnl2027.gov.pt/np4/entreler/artigo7.html.

Pombos e maritacas

«No dia 31 de Janeiro de 2014, foram avistadas cinco maritacas na Avenida António Augusto Aguiar. O que faziam ali cinco aves tropicais, soltas em pleno inverno lisboeta? Estes pássaros grandes, coloridos, barulhentos, misturados entre os pombos quietos e cinzentos, passaram despercebidos a praticamente toda a gente que estava à sua volta. Eu reparei. E desde já estabeleço uma nota importante: falo de mim com um certo pudor — não gosto de usar a palavra ‘eu’ logo no primeiro parágrafo —, pelo simples facto de ‘eu’ me parecer um objecto de estudo de fácil acesso para as questões que me interessam aqui. Do que me interessa falar aqui é sobre o que é ser daqui, o que é estar aqui, ou estar em algum outro lugar.»

Publicado na revista Forma de Vida nº 5, janeiro de 2015. Continua em https://formadevida.org/s/fdv5arqasabino.pdf.

Araras e pardais

Um ensaio sobre óptica subjetiva

«Um pardal é uma ave extraordinária. As suas plumas cor de madeira de carvalho, com matizes de castanheiro, cedro, mogno e cerejeira cobrindo o peito suavemente arredondado, o seu bico triangular, de uma proporção perfeita, com as arestas curvadas em gentil elegância, os pequenos olhos cheios de brilho, vivacidade e enigma. É de facto um animal belíssimo. Mas porque é que é mais fácil elogiar a beleza de uma ave exótica? Dizer ‘os pardais são aves incríveis’ parece à partida distinto de ‘as araras são aves incríveis’. A diferença, a meu ver, reside pouco nas qualidades das próprias aves.»

Publicado na revista Forma de Vida nº 13, maio de 2018. Continua em https://formadevida.org/asabinofdv13.

Writing for Real

Um ensaio sobre superfícies de inscrição e instâncias de legitimação

«’Stop writing on walls’, pode ler-se na parede de uma casa de banho feminina de uma Faculdade de Letras portuguesa. A frase remata: ‘start writing for real’. O apelo parece razoável, mas levanta mais perguntas do que aparenta. Nomeadamente: o que significa writing for real?

Iniciando um trabalho de tradução que inclui uma tentativa de perceber a intenção da autora, a ideia parece ser a de exortar a que se deixe de escrever nas paredes (e vou deixar passar o paradoxo em relação ao meio escolhido para a inscrição que contém esse conselho) e se passe a escrever a sério. Só que este sério também levanta problemas. Imagino que a sério signifique neste caso: de forma estruturada, coerente, linear, progressiva, em direção a uma obra mais extensa, que poderá ser eventualmente reproduzida em formato livro (é uma longa presunção, mas sendo a autora anónima, não posso pedir-lhe que a confirme ou desminta). Mas porque é que publicar, tendencialmente em livro, seria mais sério ou mesmo mais real, em duas possíveis versões da expressão inglesa for real na nossa língua? A frase escrita no livro é mais séria ou real do que a frase proclamada ao vento, sussurrada ao ouvido, lançada em aviões de papel, enviada em carta postal, ou escrita numa parede?» […]

Publicado na revista Forma de Vida nº 21, Agosto 2021. Continua em https://formadevida.org/asabinofdv21.

Húmus

Húmus, murmúrio mudo,
pedregulhos húmidos de bafio e brilho,
espectros sombrios de que foge o estio,
buxos puídos, denegridos sepulcros…
Como pode algo tão lúgubre
ser tão luminoso?
Com uma penada ilumino,
com outra, ludibrio.

(sobre Húmus, de Raul Brandão)

Não me contes o final

APONTAMENTOS SOBRE NARRATIVA E EXPECTATIVA NA LITERATURA E NO CINEMA

«São várias as razões pelas quais Exotica, de Atom Egoyan, é um filme extraordinário. A primeira das quais sendo aquilo que não se vê no filme: aquilo que se vai inventando dentro de nós para corroborar a sequência de imagens que está a passar à nossa frente. Isto leva-nos a observar que um filme não se encerra entre o seu início e o seu fim; que existe toda uma construção, interior a nós, que suporta aquilo que está englobado na duração do filme.

Logo à partida, há a ideia que se forma em nós quando o filme ainda não começou, mas sabemos que o vamos ver. Podemos ter expectativas perante o filme, geradas pela opinião ou descrição de outrem (embora saibamos como essas descrições podem ser subjectivas). Podemos também ter expectativas pessoais, criadas pela estima que temos pelo seu realizador ou actores, ou podemos mesmo estar a par do enredo, porque lemos uma sinopse ou lemos o livro a partir do qual o filme foi adaptado. Neste ponto, tenho observado (de uma forma totalmente empírica) que os espectadores se dividem em dois tipos: os que não querem saber nada sobre os eventos que se vão passar, num filme ou num livro, e os que não se importam nada com o facto de saberem alguma coisa à partida.

Aquilo que motiva esta diferença prende-se com questões de narrativa e de expectativa, construções que são comuns ao cinema e à literatura. […]»

Apresentado e publicado no I Simpósio «A fusão das artes no cinema», no XX Festival Caminhos do Cinema Português. Continua em https://caminhos.info/docs/proceedings_simposio_2014.pdf, páginas 39-44.

Thinking through drawing

«This essay is a praise for drawing as a form of thinking. Particularly, to project-driven drawing: the kind that we do when we are searching for a form of something to-be. We will talk about that exploratory activity that allows us to solve problems, trying to reach a conclusion through searching for it in the traces that a pencil leaves on a sheet of paper. The process is very similar to writing an essay, in the way that it is the choosing of words and sequencing of sentences, and their constant checking and reviewing, in order to reach a final form. A goal is to be achieved, while certain constraints are to be attended to. In the end, a result will arise, a result at which we arrive by writing / by drawing.

Although it would make perfect sense to begin this essay without knowing exactly where it would end, we should lay down some ground rules as to what is the subject, the extent and the purpose of these pages — even if only to sparkle the thinking process. In a broad sense, what we’ll be talking about is the thought connected to the act of drawing, and concentrate on a particular kind of drawing. In terms of the thinking involved in it, drawing could be classified in terms of its purpose: what you are aiming to do when you’re drawing, and the means you have, or are willing to provide, for it. Roughly, there’s the kind of drawing you do when the object you are drawing is in front of you and you’re interpreting it, the kind of drawing you do when you’re picturing something in your head and trying to transfer it onto paper, and a kind of exploratory drawing, which is widely used in the applied arts, in which you are trying to discover, through drawing, the shape of something that doesn’t yet exist — either in reality or in your own head — as a finished object.» […]

Keep on reading at: https://confia.ipca.pt/files/confia_2018_proceedings.pdf (pages 290-297).

Farinha, água e espera

«Também eu, como tantas outras pessoas, passei parte do meu tempo de confinamento a alimentar um fermento. Aliás, primeiro alimentei a ideia de fazer um fermento, apenas com farinha e água. Estudei, ponderei, li procedimentos, pedi receitas. Depois, alimentei o dito fermento, com farinha e água — no início 20g, depois 50g; primeiro, a cada 24 horas, depois, a cada 12 horas. Levei-o a todo o lado na casa, à procura de um lugar quentinho, aconchegado, aconchegante. Disseram que ao sétimo dia estaria pronto; não estava, não desisti. Dei-lhe tempo. Continuei a alimentar de manhã e à noite, a dar-lhe carinho e quentinho, a observar-lhe o crescimento, sempre acanhado, inconstante. Ao décimo oitavo dia, quando pensamentos melancólicos sobre o fim (do fermento) já me invadiam o espírito, deu-se o milagre: duplicou de tamanho, estava pronto. Então pensei: vitória! Venceu a persistência, a dedicação, a paciência. Está pronto. Mas isso era apenas porque ainda não sabia o que vinha a seguir. Fazer um pão com massa mãe — com este fermento de bactérias selvagens que circulam no ar e simplesmente se agarram à farinha quando lhes damos condições para isso — exige uma grande disciplina. Ter um fermento pronto […] é apenas o primeiro passo; o primeiro de muitos. 

Esta não foi a primeira vez que me aventurei a lidar com organismos vivos na cozinha. De há uns meses para cá faço o meu próprio iogurte, pelo que já percebi a importância da temperatura certa, da paciência, da tentativa-erro, da afinação, de tentar compreender o bicho e até de seguir o nosso instinto para escolher a melhor maneira de cuidar dele, ouvindo-o e ouvindo-nos, como faríamos com um filho. 

Tendo o fermento pronto, agarramos nele, no entusiasmo, na farinha e na água e juntamos tudo numa taça. E esperamos. […]» 

Publicado originalmente no projeto Alento, de Matilde Viegas e Mafalda Salgueiro.
Continua em https://alento.online/Farinha-agua-e-espera

Beckett de bicicleta

Não é por nenhuma das suas peças que invoco o nome de Samuel Beckett, mas sim por uma citação sua, muitas vezes repetida: «Try again. Fail again. Fail better.» Estou a repeti-la, mais esta vez, para descrever as minhas inúmeras tentativas de andar de bicicleta.

Não me lembro de ter andado de bicicleta quando era criança. Tenho, portanto, mais histórias acerca de não andar de bicicleta. Pertenço ao provavelmente minoritário grupo de turistas que visitaram Amsterdão sem andar de bicicleta. Foi a pé que percorri as ruas desta cidade, na minha primeira viagem a solo. Mais tarde fiz outras viagens sozinha: Londres, São Paulo… Mais cidades onde nunca pedalei.

A razão para não pedalar, julgo, era o medo de cair, de me magoar com a própria viatura, e um desconhecimento em relação ao prazer que pedalar pode dar. Andar a pé parecia uma alternativa mais adequada ao meu ritmo distraído pela cidade. Além do mais, tenho um enorme apreço pelos transportes públicos, que me permitem dar de caras com pessoas com as quais possivelmente não me cruzaria noutra situação. Mas até as relações humanas a bicicleta tem a capacidade de melhorar — voltarei ao tema já de seguida.

Entretanto, mesmo apesar de não ter crescido com ela, entendi por força da razão que a bicicleta era um transporte que me deveria agradar — é ecológico, relativamente lento na melhor acepção da palavra, e extremamente autónomo. Tudo qualidades que muito me dizem. Por isso, tentei.

Fiz uma primeira tentativa séria quando fui trabalhar para Coimbra, em 2007. Os transportes públicos deixavam muito a desejar, e pareceu-me que a escala da cidade o permitiria. Achei que o plano tinha tudo para funcionar e fiz o que alguém que não percebe nada do assunto faria: fui a uma loja de desporto num centro comercial e escolhi uma qualquer. Só tive a preocupação de escolher uma portuguesa — enfim, era um critério possível para quem não conhecia outros. Era uma bicicleta e pronto.

No dia seguinte, sentei-me em cima dela para ir para o trabalho. Só nesse momento pensei: “Eu sei andar de bicicleta? Será que alguém já me ensinou a andar de bicicleta?”. Como disse, em criança nunca tive uma, apesar dos meus irmãos terem tido cada um a sua. Os meus pais não se lembram de eu alguma vez ter pedido. Eu não me lembro de nenhum momento de aprendizagem. Mas suponho que isso tenha acontecido, pois consegui pegar nela e ir para o trabalho, não um dia, mas vários dias seguidos.

Entre incursos pelo passeio e partes de estrada, descobri que Coimbra tinha muito mais inclinação do que eu imaginava. Passei a chegar ao trabalho atrasada, cansada, e numa pilha de nervos. Insisti o suficiente para os meus colegas me levarem a sério, e como fiz anos por essa altura, ofereceram-me um capacete, um cadeado, luzes e uma bomba de ar. Tudo coisas que eu não imaginaria precisar e que foram extremamente úteis. Mas aquilo continuava a parecer-me uma batalha. Pedi a várias pessoas conselhos acerca de como usar as 3 x 7 = 21 mudanças que tinha disponíveis. Apesar de me proporcionarem inúmeros sustos com barulhos na corrente, nenhuma delas parecia adequada às não tão grandes subidas que precisava superar. Veio o Inverno mais rigoroso… e eu deixei os pneus esvaziarem na garagem. Mais tarde, deixei Coimbra e a bicicleta lá veio comigo, no meio dos caixotes.

Anos depois voltei a estudar, em Lisboa. A casa onde escolhi ficar era relativamente perto da Universidade — uns dois quilómetros praticamente planos. Tinha autocarro à porta ou podia caminhar, mas os dois processos me pareciam demasiado morosos para uma distância aparentemente tão curta. Voltei a lembrar-me da bicicleta. E do capacete, das luzes, do cadeado, da bomba de ar. Levei tudo a muito custo para Lisboa — ainda hoje não sei como desembarquei do autocarro com a bicicleta, uma mochila e um trólei, e fui até casa arrastando todas essas rodas sabe-se lá com quantas mãos.

Recomecei a pedalar com vontade. No primeiro dia, ao atravessar a passadeira de um cruzamento com ela na mão, em passo acelerado, acertei no pedal com o calcanhar — de sandálias, evidentemente. Doeu-me para caramba. Mesmo. Fora esse incidente doloroso, em que me senti traída por algo que era suposto ajudar-me, sempre que chegava a casa era um martírio para a pôr dentro do espaço de que dispunha, e as paredes da casa alugada começavam a ficar com marcas negras que apontavam para a minha culpa. Não sabia como mexer nela, tinha a sensação de que me podia magoar de mil maneiras diferentes e, claro, ainda não sabia usar as vinte e uma mudanças. Esta foi a segunda das minhas tentativas pessoais, e a segunda vez que desisti.

Depois dessas duas tentativas falhadas, uma em Coimbra e outra em Lisboa, aconteceu que me mudei para São Paulo. Estava a preparar-me mentalmente para que pudesse ser uma mudança, digamos assim, para sempre, por isso ofereci a bicicleta aos sobrinhos. E fui. São Paulo não era, na altura, amigável para bicicletas, e esqueci esse assunto.

Devo dizer que antes sequer da minha primeira tentativa, acompanhei de perto o pedalar de outras pessoas. Lembro-me particularmente de dois amigos próximos que andavam de bicicleta no dia a dia, muito antes de eu sonhar que viria a usar esse meio de transporte. Quanto a um, assustavam-me os seus comportamentos de risco, as histórias como «hoje quase que levei com uma porta», «hoje um taxista passou tão perto que senti o retrovisor no cotovelo». Quanto ao outro, pude observar a batalha interior e discussões exteriores por causa do quanto ele estava disposto a gastar num meio de transporte, que, à partida, ele tinha escolhido por ser mais barato. Encerrou-se uma conversa entre amigos com uma sonora gargalhada quando ele perguntou em voz alta: «Mas porque é que as pessoas acham estranho eu querer dar mil euros por uma Kona?». Lembro também de um dia estar em casa de outro amigo, que ficava muito perto da praia. Pensamos em ir à praia, havia ali duas bicicletas… mas eu eu teimei que não, nem pensar andar na estrada de bicicleta.

No final, foi mesmo o observar um rapaz a andar de bicicleta que me convenceu a voltar a tentar; que trouxe de novo a bicicleta para o território das possibilidades. Mas não era um rapaz qualquer. Era o Louis Garrel, no filme Os Sonhadores, e fê-lo da maneira mais banal possível — exatamente o que eu estava a precisar. A certa altura do filme o rapaz vai encontrar-se com uma rapariga para irem juntos ao cinema. Como é que ele vai? De bicicleta. A bicicleta não é o tema do filme, de todo: não lhe é dada a mínima atenção ou destaque. Simplesmente aparece no plano porque está a ser usada, como se de uma cadeira ou um copo se tratasse. Nas cenas finais, ele sai para a rua para se juntar à revolução. Como? De bicicleta, naturalmente. Naturalmente. Suavemente, fluidamente. Era isto! De todas as vezes que eu tinha tentado andar de bicicleta, era esta naturalidade que eu almejava. Essas cenas ficaram incrustadas na minha memória como se fizessem parte de mim desde pequena, como que substituindo passeios prazerosos em criança. Não sei se foram filmados em câmara lenta, o montar e desmontar da bicicleta na porta do cinema (aliás, duvido), mas na minha cabeça claramente são.

Tendo voltado de novo para Lisboa, para terminar o mestrado, na mesma casa a dois quilómetros da Universidade, decidi tentar outra vez. Informei-me, vi vídeos, falei com pessoas. Na verdade, a bicicleta estava já nos meus planos quando, ainda em São Paulo, preparava mentalmente o meu regresso. «Mas o que é que eu vou fazer em Portugal de novo?» «Vou andar de bicicleta». Não sei exatamente de onde surgiu essa ideia, mas o facto de decidir regressar a um país em crise, sem emprego à vista, e portanto precisar de um estilo de vida o mais económico possível terá tido o seu papel. De qualquer maneira, sou uma pessoa que precisa de planos.

Como a bicicleta tinha sido doada aos meus sobrinhos, comprei outra, em segunda mão, depois de longas pesquisas, experiências e pedidos de aconselhamento. Sem mudanças. Sim: zero mudanças (uma mudança imutável, vá: uma single speed). Uma bicicleta ligeiramente menor do que o costume, adequada à minha altura, muito fácil de manejar. Com um quadro totalmente aberto, que me permitia entrar e sair dela com a maior das facilidades. Houve até um dia em que ela caiu e eu consegui saltar dela para o passeio, ficando em pé, ilesa, a olhar para a bicicleta no chão, com a roda a girar. A melhor escolha de sempre. Se ia voltar a tentar, esta seria a minha melhor tentativa. Talvez falhasse de novo, mas falharia melhor.

Para demonstrar como esta foi uma excelente tentativa a todos os níveis, preciso de voltar a falar de rapazes. Um dia, depois de uma tarde de praia com um amigo muito querido, eu estava com a bicicleta na mão à minha frente e ele aproximou-se de mim mais do que eu esperava, mais do que um amigo o faria. Eu, com a atrapalhação, deixei cair a bicicleta, que lhe acertou com um pedal nas canelas. Juro que não foi de propósito. Juro! Mas confesso que quando, cheia de expectativa, o vi de olhos fechados a ganir para dentro, senti que talvez eu tivesse escapado de alguma coisa importante. Bicicleta amiga, uma que me protege nos momentos mais difíceis! Talvez naqueles segundos de olhos fechados ele tenha ouvido a bicicleta perguntar-lhe: «Tens a certeza?». Ou talvez tenha sentido simplesmente que o momento estava arruinado. Aguardei um pouco, mas mais nada aconteceu. A verdade é que a aproximação não foi tentada de novo, e pude prosseguir com a minha vida.

A minha vida, na verdade, prosseguiu no sentido de um beijo depois de um passeio de bicicleta. No processo de compra da bicicleta, além de incomodar vários vendedores particulares, cheguei a visitar algumas lojas — especializadas, desta vez; há que aprender com os erros. Numa delas, em particular, um dos donos pareceu-me ser uma excelente pessoa. A verdade é que, bem antes de eu perceber o que se passava ali, o facto de o conhecer renovou a minha esperança na humanidade, em geral; nos rapazes, em particular. Ali estava um excelente exemplar, pensei, e comentei com uma amiga que fui visitar logo depois de o conhecer. Um homem bom. Ainda havia por aí homens bons, e eu haveria de encontrar um que quisesse passar a sua vida comigo.

Nos dias, semanas e meses seguintes passei a gravitar, sem saber bem porquê, em torno daquela loja. O uso da bicicleta estava agora mais do que estabelecido, mas para isso ainda precisava de um cadeado, luzes, capacete. E uma campainha, um cantil, ou até talvez uma revista para oferecer à amiga que mais me aconselhou nesta última tentativa — última porque finalmente bem sucedida. E claro, a altura do selim tinha que ser afinada, assim como as pastilhas e cabos dos travões, e talvez os punhos pudessem ser substituídos. Tudo razões perfeitamente válidas para novas visitas, numa altura em que nem eu mesma percebia o que me levava ali. Comecei a desconfiar do que se passava dentro de mim quando um dia ele me pergunta: «Tens pressa? Ou posso atender este cliente primeiro?» e eu respondi «Claro, não te preocupes; eu posso esperar». Tinha pressa, muita pressa: tinha outras coisas combinadas para as quais já estava atrasada. Mas quando estava perto dele, o mundo enchia-se de tranquilidade e tudo parecia poder esperar. Quando me aproximava dele, nunca me queria afastar.

O resto… já o disse: um passeio de bicicleta na praia, o primeiro beijo. Ainda não ensinámos o nosso filho a andar de bicicleta, mas esse tempo está quase a chegar.